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The Economist: Os lucros dos bancos americanos estão nas alturas

O que colabora é a economia em alta e os mercados disparando

The Economist: Os lucros dos bancos americanos estão nas alturas



Por: Fabio Pordeus Pedrosa | 19/04/2021

Os velhos e bons tempos estão retornando à América. Agora que quase 200 milhões de vacinas foram administradas, as pessoas vêm se aglomerando em bares, restaurantes e lojas. Os dias estão mais quentes e mais longos. E os bancos vêm registrando um retorno sobre o patrimônio líquido de 20% novamente.

Houve um bom lapso de tempo desde quando Wall Street apresentou resultados excelentes como os que os bancos americanos anunciaram para seus investidores em 14 de abril. JPMorgan Chase contabilizou receitas recorde no primeiro trimestre; no caso do Goldman Sachs elas foram o dobro do registrado no primeiro trimestre de 2020. Os lucros do Bank of American dobraram no ano e os do Citigroup triplicaram.

Os retornos sobre o capital tangível, medida dos lucros em relação ao capital, saltaram 20% no Citigroup, 29% no JPMorgan e 33% no Goldman. Nem mesmo antes da crise financeira global, há mais de uma década, os acionistas dos bancos ganharam tanto.

Dois fatores explicam esse boom. O primeiro foi a atividade frenética dos mercados de capital no primeiro trimestre. A explosão de operações nos mercados de títulos e ações, em parte motivada pelo aumento do comércio varejista, levou os lucros sobre as operações de investimento do JPMorgan a uma alta recorde.

Empresas se apressaram para entrar nas bolsas e emitir ações para os mercados efervescentes: as receitas vindas da subscrição de títulos aumentaram 40% no Goldman, em comparação com o quarto trimestre passado. A loucura pelas empresas chamadas SPACS (sigla em inglês de empresas cuja finalidade é angariar recursos e depois combinar seus negócios com outras empresas) elevou as receitas decorrentes de operações de investimento do Citigroup em mais de 50% em comparação com o trimestre precedente.

As transações financeiras transbordaram depois de uma seca durante o pior período da pandemia. As comissões de consultoria do Goldman foram 40% maiores do que no mesmo período do ano passado. E o chefe do banco, David Solomon, disse aos investidores que a carteira de transações programadas registrou uma alta recorde.

O segundo fator por trás desses resultados robustos é a perspectiva mais promissora da economia dos Estados Unidos. O continuado estímulo oferecido pelo governo levou as instituições de crédito a reverem suas previsões econômicas.

Ou seja, provisões feitas para cobrir empréstimos não pagos não são mais necessárias. O JPMorgan reservou US$ 1,1 bilhão para cobrir empréstimos não pagos no primeiro trimestre, mas agora US$ 4,2 bilhões de empréstimos que esperava ter de contabilizar como perdidos deverão ser reembolsados, permitindo que a soma seja inscrita como rendimento.

Os lucros aumentaram em 30%. O Wells Fargo, que também informou bons resultados em 14 de abril, mas não se beneficiou tanto do entusiasmo dos mercados de capital, acrescentou US$ 1 bilhão à sua receita antes de pagos os impostos graças ao fato de as perdas terem sido menores do que o esperado. O Bank of Americana aumentou seus ganhos em US$ 1,9 bilhão pela mesma razão.

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Esses resultados ajudam a explicar porque os preços das ações de alguns bancos recuperaram suas perdas desde março de 2020 e até produziram ganhos. Mas provavelmente nenhum desses fatores que motivaram os aumentos deve durar. Embora tenham continuado muito robustas por vários trimestres consecutivos, as receitas provavelmente retornarão a níveis mais normais. Abater as provisões contábeis feitas para cobrir empréstimos não pagos não irá promover a receita dos bancos indefinidamente.

Basta ouvir o que afirmam os que estão no comando dos bancos para entender o quão diferente e difícil é administrar um banco nos tempos modernos. Mesmo quando disse aos investidores que os resultados subjacentes eram “fabulosos”, Jamie Dimon, dirigente do JPMorgan, lamentou quanto tempo seu banco havia dedicado a discutir toda “sopa de letrinhas” de regulamentos impostos para os balancetes das grandes instituições de crédito, como CECI (perdas correntes de crédito esperadas) o SIR (taxa de alavancagem suplementar) e o G-SIFI (capital extra para instituições financeiras globais sistemicamente importantes).

E mesmo que a pandemia tenha estimulado os lucros recorde registrados por muitos bancos, ela também os colocou numa posição delicada. À medida que o Federal Reserve adquire ativos para respaldar a economia, seu balancete incha. Cada ativo adquirido pelo Fed cria um novo depósito em dinheiro que segue para contas nos bancos. Com os cheques passados a título de estímulo e os mercados de capital robustos, a demanda de empréstimos por empresas e famílias é baixa.

O resultado é um aumento de depósitos, especialmente nos grandes bancos que, por seu lado, têm resultado em regulamentos pós-crise ainda mais estritos. Mais depósitos e ativos líquidos tornam os bancos maiores em termos absolutos, o que, por exemplo, aumenta o G-SIFI a pagar e torna as taxas de alavancagem piores. O que parece perverso, uma vez que esses bancos são mais seguros. “Temos US$ 2,2 trilhões de depósitos, US$ 1 trilhão de empréstimos e US$ 1,5 trilhão em caixa e títulos comercializáveis, grande parte disto não pode ser usado para intermediar ou emprestar”, disse Dimon.

Os órgãos reguladores analisam a possibilidade de flexibilizar algumas regras. O SIR exige que os grandes bancos se financiem com um patrimônio de pelo menos 5% dos ativos totais. Em março de 2020, a percepção de que as ações emergenciais do Fed tiveram um efeito indesejado de tornar o SIR ainda mais rigoroso, os agentes reguladores excluíram as reservas de caixa e os títulos do Tesouro do cálculo daquela taxa. Mas estender essa isenção criteriosa e pragmática provou ser politicamente arriscado e foi abolida no final de março deste ano. Os bons tempos podem ter retornado, mas não são tão bons como costumavam ser.


FONTE: Estadão - Acesse