Análises

Playground financeiro

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Por: Fabio Pordeus Pedrosa | 23/07/2021

Não faz muito tempo e o pregão viva voz era a realidade nos ambientes de negócios das Bolsas de Valores pelo mundo. Um “balé” executado por compradores e vendedores com cadência própria, intensa e, muitas vezes, afastada da racionalidade. Termos como “bate, toma, galo, duque e terno”, ecoavam preenchendo a atmosfera do lugar. Até que as negociações on-line colocaram o Mercado de Capitais noutro patamar - no que concerne ao varejo e as negociações envolvendo pequenos investidores (pessoas físicas) - para o bem e para o mal. Suscitando o interesse e aprofundando a cobiça de muitos. Até aí nenhum mal, pois as travas de acesso preservavam a muitos de uma exposição indevida. Até que Wall Street apresentou ao mundo uma pequena revolução nas operações com ações. Era o “mundo do dinheiro” ao alcance de um click. Bem vindo às operações on-line.

Rapidamente a inovação foi alcançada pelo “lado negro da força”, e teve inicio a exploração maciça do potencial econômico do modelo. E não estamos falando do acesso à riqueza através dos resultados das operações de Mercado, mas sim da exploração do “invento” através de mecanismos que atiçavam ainda mais a ambição, o anseio e a ilusão. Eram peças publicitárias que buscavam vender uma facilidade que beirava a idiotice. O ganho fácil, rápido e frugal era colocado diuturnamente aos mais crédulos. Era preciso convencer a maior quantidade de pessoas possível que operar no Mercado Financeiro não exigia trabalho árduo, nem impunha esforço e tampouco habilidade. Bastavam alguns clicks, uma fração de tempo e pronto... a riqueza iria fluir para o “seu bolso” tal qual o ferro na direção do imã.

Na década de 1990 o fluxo destas transações ganhou proporção nos Mercados Americano e Europeu. Alcançando visibilidade no Mercado Brasileiro na ultima década, e com mais intensidade nos últimos três a cinco anos. O tema se tornou habitual nos bares e cafezinhos, nas faculdades e salões de beleza, como estavam presentes nas “peladas de domingo”. As pessoas se apossaram do assunto, tratavam do tema com a profunda autoridade de quem NÃO havia caminhado um passo na construção do conhecimento.

A avalanche de decisões descoladas do racional passou a conduzir o movimento dos preços. Não interessa a saúde das Companhias, a viabilidade dos negócios, sua capacidade de gerar caixa. Se tudo um dia “foi mato” agora se transforma num desastre financeiro. Bastam os códigos, o movimento dos números numa tela e a adrenalina. O preço de Mercado das Empresas perdeu a relação com o verdadeiro valor das Companhias. Condutas criminosas por parte de Casas de Análises, Corretoras e Bancos de Investimentos e seus preços-alvo encorajam uma “corrida de tolos” na qual muito é sacrificado na crença de que um tolo maior queira pagar um preço mais alto do que você, num eterno retroalimentar que ao esgotar desemboca no estourar da bolha.

Game Over

 

(Por Fábio Pordeus, Investidor e Trader)